sábado, 14 de setembro de 2013

A Utopia Antropofágica por David Almeida


O Matriarcado como Condição Humana Original e Libertadora

“Há coerência na loucura antropofágica – e
sentido no não senso de Oswald de Andrade”.[1]


INTRODUÇÃO

O presente texto pretende compreender quais foram as influências filosóficas do Movimento Antropofágico e suas contribuições para o pensamento filosófico universal. Antes de qualquer coisa, sabe-se que consistiu num movimento de vanguarda essencialmente artístico-literário capitaneado por artistas e intelectuais brasileiros de inícios da década de 1920 que pretendia um radical afastamento da arte nova em relação às tradições passadas e a afirmação da cultura nacional originária frente ao aparelhamento colonial político-religioso opressivo sob o qual se formou a sociedade brasileira. Surgia com essa arte um retorno, mas não acrítico, às formas “primitivas” de expressão, inspiradas na arte africana e indígena, que apontavam para o pensamento selvagem ou mitopoético, entendendo-se selvagem como contraste ao pensamento “civilizado”, pragmatista e servil. Esse foi o espírito motivador para Oswald de Andrade na escrita do Manifesto da Poesia Pau Brasil, texto – fundamental para o Modernismo brasileiro – que abordou tanto o primitivismo de caráter psicológico quanto o da experiência da forma artística externa. Esta obra serviu de precursora da Antropofagia, cujo início se daria com a publicação em maio de 1928 do Manifesto Antropófago, de autoria do mesmo escritor. Neste, o autor usa, imiscuídas num só discurso, imagens e conceitos, provocação e argumentação, piada e reflexão filosófica como forma de crítica ao pensamento linear europeu. Escolhida por seu poder de escândalo, a palavra “antropofagia” serve para ferir a imaginação do leitor com a recordação incômoda do canibalismo, retraduzida em possibilidade permanente da espécie. Repleta de ressonâncias mágicas e sacrificiais a palavra funciona como instrumento de ofensa pessoal que alarga e retrai os contextos éticos, sociais e religiosos. Ela fala da agressão ao inimigo colonizador, ao patriarcalismo, sua moral e esperanças messiânicas, da ofensiva contra a intelectualidade aí forjada como imitação da metrópole e submissão ao estrangeiro, e também o indianismo como purificação das frustrações do colonizado, que imitou o colonizador. A antropofagia faz as vezes de uma cosmovisão. Sua análise da vida cultural brasileira oferece as razões para sua atividade política. Ela representa uma teoria de interpretação do mundo, uma visão congruente com suas próprias leis de modo a compreender os fenômenos do mundo de maneira imanente, por meio das regras internas à Antropofagia, num conjunto orgânico (BERRIEL, 1992, p. 130).
Porém, os dois textos que melhor reproduzem o pensamento filosófico de Oswald são A Marcha das Utopias e A Crise da Filosofia Messiânica, que servem de coroamento do que vinha construindo desde a Poesia Pau Brasil,  agora em prosa argumentativa.

O CICLO DAS UTOPIAS

Apesar de eu reconhecer a problematicidade em assumir para a academia que Oswald tenha produzido uma filosofia em sentido estrito, creio não necessitar de muitos argumentos para justificar uma análise filosófica de sua obra, porque uma tal abordagem de seu pensamento não é nova. Silvio Gallo, Eduardo Sterzi, Benedito Nunes e João Cezar de Castro são alguns dos autores contemporâneos que têm reconhecido haver uma genuína filosofia em Oswald[2]. Sterzi chega mesmo a afirmar, de maneira equivocada, no entanto, que Oswald é autor da “única filosofia original criada no Brasil”, o que não é verdade, já que temos uma gama extensa de filósofos brasileiros que produziram uma filosofia autoral. Para não me alongar cito, e. g. Antonio Vieira, Vicente Ferreira, Darcy Ribeiro. O fato é que sua obra apresenta aspectos qualitativos suficientes para figurar na história do pensamento filosófico universal.
De sua vasta produção, possui imediata relevância A Marcha das Utopias. Neste texto, a análise das utopias responde ao projeto filosófico-político do autor de entendimento do lugar do Brasil dentro desta marcha na qual ocupávamos lugar de destaque. Oswald francamente interpreta fatos históricos sob o olhar estético, e não apenas isto, subordina toda a política a uma visão estética, pois quaisquer anseios de equanimidade e justiça não podem ser entendidos senão enquanto respondendo a critérios de harmonia e proporção, estes eminentemente estéticos. É digno de nota sua participação em um congresso que também comemorava a invasão da América, em 1944 onde indagava: “Mas o que procurava Colombo sob as estrelas novas do hemisfério ocidental, onde, no dizer do poeta, 'a razão humana se perturba e a agulha inventada pelos homens não sabe mais onde é o norte'?” (ANDRADE, 1944). Por suas palavras se vislumbra a interpretação histórica em que admite seu pendor estético: “Nada ele procurava além da liberdade. Era a inocência duma terra 'no sétimo dia da criação', onde se escoavam ainda as águas do dilúvio e onde, longe das aflições do pecado, residia a liberdade” (Idem).
O pensamento filosófico-político de Oswald pode ser dito utópico, mas isso não depõe contra a agudeza e relevância de sua contribuição. Como ele mesmo afirmou: “no fundo de cada utopia não há somente um sonho, há também um protesto” (ANDRADE, 1978, p. 194), revelando que toda utopia se mostra subversiva por expressar um intenso desejo de romper a ordem vigente. Ele reconhece em “A Marcha das Utopias” um período histórico amplíssimo como aquele referente ao que denomina “Ciclo das Utopias”. Este vai da publicação das cartas de Américo Vespúcio no início do século XVI até o Manifesto Comunista de Marx e Engels no século XIX (Idem, 2011, p. 221). Período marcado por enormes transformações culturais e históricas, presenciou as contribuições de Morus, Campanella, Cabet, e experiências como a Comuna de Paris.
Oswald não inclui aqui a Revolução Haitiana que inicia em 1791, mas esta figura comodamente como mais uma das experiências históricas que respondiam por fortes expectativas utópicas, já que os haitianos intencionavam criar a primeira e única República Negra nas Américas onde economia, política e religião seriam dirigidas por negros. Esta guerra de independência que foi a primeira revolta de escravos bem sucedida na história humana, e o primeiro rompimento com os poderes imperiais europeus, pode muito bem ser parte da marcha utópica, porque sua implementação exigiria uma tal transformação no capitalismo colonial que suas bases escravocratas teriam de ser desconstruídas. Todos os países europeus e os EUA se oporiam, já que pretendia-se a libertação dos negros na colônia mais rica de então. O inicial sucesso da revolta e a vitória sobre os exércitos ingleses e posteriormente os de Napoleão, por incrível que pareça, impressionaram o mundo escravocrata. E, mesmo que muito fugazmente, desestabilizaram o sistema econômico e sua base escravocrata, já que, além da independência política, na nova Constituição haitiana feita logo após a guerra contra os ingleses, liderada pelo haitiano Toussaint L'Ouverture, instituiu-se o fim da escravidão e a não discriminação pela cor da pele. Este foi o primeiro documento no mundo a reconhecer a igualdade de direitos de qualquer etnia, mesmo tendo sido escrito, ironicamente, por escravos negros que teriam todos os motivos para subjugar os brancos. Nem a Declaração dos Direitos do Homem na França, nem a Declaração de Direitos dos EUA reconheceram tal direito, fato que explica por que a escravidão dos negros perdurou legalmente ainda por longo tempo[3]. Mas, o preço de sua ousadia foi alto. Houve um boicote internacional ao Haiti. Finalmente tiveram de indenizar os franceses pelas propriedades expropriadas. E, hoje conhecemos o Haiti como a nação mais pobre das Américas. No entanto, os motivos para isso são externos ao povo haitiano. Representa o resultado de uma realização histórica espantosa, de uma tentativa demasiadamente ousada para a mentalidade primitiva do ocidente.
Segundo Oswald, os pontos altos do Ciclo da Utopias foram a miscigenação do século XVI, nossa luta no Brasil contra a Holanda no século XVII, a revolução francesa no século XVIII e a convulsão política de 1848. A luta contra os holandeses deve sua relevância por ter colocado frente a frente duas cosmovisões conflitantes: uma a da Reforma, outra a da Contrarreforma. Esse conflito de modos de vida remonta à Antiguidade, momento em que os judeus criam o racismo ao se considerarem um povo especial e escolhido por Yawé. Em contrapartida, é nesse mesmo período que os árabes, povo dado ao contato, iniciam o que chamamos hoje de miscigenação. Assim, Oswald interpreta a luta milenar entre árabes e judeus via modos de relacionamento desses povos com outros a seu redor. Os árabes representariam aquela cultura fecunda e acolhedora, enquanto os judeus, todas as mazelas do racismo e xenofobia. A Reforma é um fruto da “árvore judia” porque implementa uma ética aberta à legitimação do lucro e da usura, a Contrarreforma, da “árvore árabe”, já que reage à acumulação capitalista capitaneada pelos protestantes calvinistas mormente. Lutero e Calvino são os rebentos da cultura judia, os jesuítas, desabilitados pelo Vaticano por sua flexibilidade política, “descendem” dos árabes. E, o catolicismo só não obteve maior sucesso no Brasil por inabilidade de seus líderes em extinguir a ordem jesuíta conquistadora de Loyola. Pois, não é necessário muita destreza discursiva ou profundidade de saber para arrebanhar centenas em nosso país. Basta apresentar-se como pastor das ovelhas de Cristo que alguém se vê rodeado de seguidores. Antônio Conselheiro, padre Cícero e, atualmente, Silas Malafaia, Marco Feliciano, Edir Macedo são exemplos contundentes da “fé ambulante das massas brasileiras” (Idem, 2011, p. 223).
As utopias refletem a descoberta de um novo ser humano que surge com a invasão do Novo Mundo. O indígena e sua alegada vida harmoniosa frente à natureza e comunidade inspiraram os europeus a pensar em possibilidades de sociabilidade inimagináveis até então. Do contato que travou Thomas Morus, segundo conta, com um indígena deixado na Feitoria de Cabo Frio por Américo Vespúcio, ele escreve sobre sua “Utopia” onde conta suas esperanças de construção de uma sociedade livre das misérias europeias. A concepção de Oswald unifica a filosofia antropofágica e torna as utopias “sinal de inconformação e prenúncio de revolta”.

“Princípio e fim, a utopia, no pensamento oswaldiano, forma o espaço transhistórico onde se projetam 'todas as revoltas eficazes na direção do homem' – também espaço ontológico, entre o que somos e o que seremos, entre, diria Oswald, a 'economia do Haver' e a 'economia do Ser'. Transformando-se, nesse espaço, de impulso biopsíquico em impulso espiritual, o instinto antropofágico tende à sua própria negação como vontade de poder, na medida em que ele próprio conduz à utopia, e na medida em que utopia significa a absorção, na liberdade e na igualdade, da violência geradora dos antagonismos sociais”. (NUNES, 1978, p. 52, Introdução à Oswald)


A REVOLUÇÃO CARAÍBA

Oswald distingue os antigos conceitos de Ócio e Negócio, relacionados respectivamente à Contrarreforma e à Reforma entendendo o Ócio não como a abstenção da atividade, mas como a ocupação com o tornar-se humano. Contra Lévi-Strauss, ele defende calorosamente a existência de um pré-histórico matriarcado universal do qual descenderam os povos periféricos de então, e o Ócio é um legado desse período que contribuirá para a libertação do humano e será a indicação mesma do nível ético de vida de um povo. O patriarcado é recolocado como fenômeno cultural representante do trauma original que marcou o surgimento da “Civilização”. 
Mario Chamie, que aproxima Freud a Oswald, chega mesmo a reconhecer a transformação do patriarcado em matriarcado como o núcleo temático da filosofia antropofágica de Oswald (CHAMIE, 2005, p 01). O patriarcado e seus produtos: o capitalismo, a burguesia, o direito de propriedade do dominador, a usura, a família nuclear, o pensamento lógico-abstrato, a repressão dos instintos e da sexualidade; são todos entendidos por nosso autor como negatividade histórica. O patriarcado se configura como um tabu encravado na história humana. Somente a implementação de uma nova idade de ouro iniciada com o matriarcado promoveria a sua substituição. Ao invés do direito de propriedade, se instauraria o direito de posse do humano primitivo, usura e o negócio seriam superados pelo ócio, o centralismo de poder daria lugar a uma vida comunitária “aberta aos prazeres vitais, ditados por uma libido individual sem censura” (Idem). O matriarcado extirparia o tabu do patriarcado da história, metamorfoseando-o em totem – em valor humano e em obra de arte – da nova idade de ouro.
Chegamos, então ao segundo texto eminentemente filosófico de Oswald, seu ensaio escrito em 1950:  A Crise da Filosofia Messiânica. Neste texto o autor pretende traçar uma esquemática filosofia da história, e para isso usa os conceitos de Matriarcado e Patriarcado como totalidades sócio-históricas (NUNES, 1979, p. 59). Oswald reconhece dois modos de vida que se originaram de cada um destes fenômenos. O Patriarcado teria dado origem à Civilização e ao messianismo, o Matriarcado à Cultura e à antropofagia. Países como os EUA já teriam extinguido quase que completamente sua Cultura, enquanto no Brasil se degladiavam Cultura e Civilização, e, enquanto os índios fossem dizimados e os negros sofisticados, corríamos o grave risco de perder a Cultura, que há muitos séculos tenta nos dar um caráter de povo lírico, cordial e estóico (BERRIEL, 1992, p. 131). Cultura é o que um povo é, sua alma, é caráter e sentimento, e a ela se conecta a ideia de Pathos. Civilização é técnica, razão, política, revela o que um povo usa, e expressa o Logos. Assim, influenciado pela dicotomia já tematizada por Spengler entre Cultura e Civilização, Oswald elabora sua utopia na construção de um esquema próprio da história mundial em termos da reordenação conceitual dos primeiros contatos travados entre a Cultura viva dos ameríndios e a Civilização europeia. O índio seria capaz de operar uma crítica existencial ao europeu, pois vive o comunismo como condição própria de sua Cultura. Deste modo, Oswald pensará a relação entre o Brasil e a Europa em termos de oposição entre a Cultura brasileira e a Civilização europeia.
Oswald chama tal transformação de Revolução Caraíba, cujo maior representante seria o humano novo, ainda adverso à degeneração civilizatória, encontrado pelo europeu. O termo caraíba provém do Tupi Kara ' ib (sábio, inteligente), e deu origem ao nome da região conhecida hoje como Caribe. Designa o povo falante do grande grupo linguístico que habitava o norte e nordeste da América do Sul, incluindo-se aí as Guianas, várias ilhas da América Central e regiões da Amazônia brasileira. Os caraíbas, como passamos a chamá-los, praticavam a antropofagia, e foram eles que primeiramente inspiraram Oswald na construção de sua filosofia.
Ainda no texto sobre a filosofia messiânica, Oswald inclui algumas relações de parentesco como o filho de direito materno, algumas de produção (a propriedade coletiva do solo) como expressão de realidades sociais livres e inarmonizáveis com o Estado de classes. Ele pinta um modo orgânico de vida condizente com a Natureza em que valores vitais são condensados na atitude antropofágica,  que promoveria a transformação do tabu em totem como modo positivo da práxis aberta aos impulsos primários que não chegaram a ser reprimidos. Impulsos que alcançariam completa expressão na antropofagia ritual das sociedades indígenas. O Matriarcado seria uma cultura antropofágica porque sendo este ritual uma prática básica e livre, apenas o Matriarcado poderia produzi-lo, pois seu oposto, o Patriarcado, corresponde aos modos de vida reprimidos, reativos e repressores dos impulsos humanos. O casamento monogâmico seria expressão desta maneira opressora de encarar os impulsos naturais para os quais o Matriarcado pretenderia dar vazão orgiástica e dionisíaca.
O correlato patriarcal da Weltanschauung como antropofagia no Matriarcado é a cultura messiânica. Este se constitui numa derivação intelectual da ascendência paterna e do poder do pai sobre seus filhos. Isto é o que garante o domínio de uma sobre outra classe e a autoridade política do Estado. Aqui, sob forte influência de Freud, nosso autor assume que a projeção deste poder que vem do pai para a esfera mais abrangente da sociedade produz a ideia de uma divindade providencial, de um ser que potencializa os poderes do pai e se torna criador e conservador da ordem do universo e da sociedade. Visão esta que grassou nas sociedades que adotaram o monoteísmo, de onde surge a moral da obediência, posteriormente transformada após a influência do cristianismo na moral de escravos nietzscheana.
O messianismo é a essência sublimada do Patriarcado e alcança todas as cosmovisões político-religiosas em que a restauração da vida alienada depende de um elemento mediador transcendente. As filosofias que assumem deus ou que, apesar de rejeitando-o, admitirem substitutos para ele são todas messiânicas. As crises crônicas por que passa tal filosofia só podem ser superadas na cultura antropofágica, que reintegrará na sociedade tecnicizada as estruturas originais do Matriarcado (NUNES, 1979, p. 63).








CONCLUSÃO

A Antropofagia corresponde a um dos voos mais ousados já experimentados por um filósofo brasileiro. A pertinência e relevância das teses de Oswald exigem que sua obra seja urgentemente analisada, e com justa seriedade para que dela retiremos as riquezas conceituais que possibilitarão um melhor posicionamento da filosofia brasileira no mundo. A forma de vida de nossos índios como, talvez, os últimos representantes do que restou da cultura do Matriarcado foi colocado por nosso autor como à frente da vida social dos europeus. Esta é uma reviravolta espetacular na maneira de interpretar a história universal. Os europeus se tornam o exemplo maior daquela cultura degenerada e repressora – o Patriarcado – da qual nunca necessitamos, como reflexo que somos de uma cultura herdeira dos indígenas que precisa ser assumida em suas mais desconcertantes e profundas expressões (e.g. a antropofagia). Nosso passado está à frente do sempre lisonjeado futuro da Civilização capitalista. Oswald revela incrível força de renovação da crítica social. Enquanto discursos desgastados falam de destruição do imperialismo, nosso autor advoga a afirmação da Cultura nacional. Em vez de pretender lutar contra o Estado e a propriedade privada, Oswald propunha a superação do Patriarcado. Mas, ele não propõe um retorno ingênuo ao passado, mas uma recolocação do Matriarcado em nossa sociedade tecnicizada. Isto porque a técnica nos servirá como meio de emancipação. O novo ser humano proposto é o primitivo tecnicizado que poderá gozar dos benefícios do ócio, da completa libertação de seus impulsos e da famigerada força transcendente divina que escraviza tanto mais quanto se assume sua onipotência. Bem como do absurdo da propriedade privada, forma de relação social apenas suportada pela ignorância com relação a seus mecanismos e funcionamento.

















ADENDO


PROJETO PINDORAMA[4]

Abstraindo-me de furtar-me à tentativa de oferecer uma proposta de solução para os maiores problemas por que passa nossa sociedade enquanto espécie, atitude que muitos veementemente interpretam como arrogante e pretensiosa o suficiente para ser descartada já de início, apresento a seguir um ensaio do que considero uma tentativa de aplicação dos princípios da filosofia Ubuntu e do Matriarcado oswaldiano numa possível, e, presentemente, inexistente associação de pessoas para o convívio pelo bem comum. Acredito piamente que, caso pretendamos ainda permanecer vivos enquanto espécie, qualquer receio em se propor alguma alteração radical e benéfica dos rumos da sociedade é compensada por esforços e ações extremamente eficazes do lado oposto, em outros termos, o pudor em não pretender propor nada, porque uma sociedade não se constrói no escritório de um pensador, é contrabalançado nos escritórios das grandes corporações, que não têm pudor algum em ditar e obrigar países inteiros a se submeter a suas leis ditas naturais. Aqueles que ainda pretendem construir uma sociedade minimamente igualitária precisam sim oferecer um caminho, ainda que não sejam ouvidos, pois os descaminhos já são tantos e tamanhos que dificilmente se pode ver além do famigerado capitalismo. Não vejo possibilidade deste projeto se concretizar nos limites do Estado brasileiro ou de qualquer outro país. Assim, destoo de Oswald em sua tentativa de construção de um Matriarcado brasileiro. Eu assumiria este projeto como anacional, no sentido de que não levará os valores específicos de uma nação, mas neste caso apenas aqueles valores retirados do Brasil não deturpado pela civilização europeia, a saber, os traços matriarcais de nossa cultura.
Pindorama é um projeto de uma outra humanidade. É a renúncia da crença de que o ser humano não pode coexistir sem injustiça, de que a desigualdade é uma pré-condição de nossa existência. Ela pretende concretizar todos os ideais de emancipação um dia já chamados utópicos numa experiência voluntária de Comunidade em que o indivíduo encontra sua identidade no papel que exerce para o Todo.
Pindorama é uma comunidade, mas não é parte de qualquer povo na terra. Também não é um povo, porque não possui estado, religião, ou economia. Pindorama é uma comunidade de humanos livres corporalmente, intelectualmente, sexualmente. Cada Comum tem exatamente o mesmo grau de poder em Realidade, e o descrédito para com as religiões institucionais é um princípio seu. Lá, elxs não conhecem o dinheiro e todas as derivações desse meio de intermediar as relações. A Confecção de seus objetos obedece exclusivamente à necessidade de cada Comum. O corpo é a única região para a qual umx Comum pode dar palavra final. Seu destino será decidido unicamente por quem vive por ele. Em Pindorama a crítica e oposição de pensamento são inerentes à sua estrutura, mas rejeita aquilo que a pode destruir: o egoísmo. Nenhuma restrição encontram xs Comuns para tudo que, compartilhado, seja praticado sexualmente. 
Pindorama é um lugar. Não pertence a país algum. Situa-se no oceano. No sítio mais distante de quaisquer países, em águas internacionais. Lá não se fala alguma língua conhecida, mas a Língua Ubuntu, que será desenvolvida por sxxs Construtorxs. Uma língua totalmente livre do machismo, preconceitos, e em constante aperfeiçoamento. Pindorama é livre de quaisquer leis nacionais ou internacionais. Não tem obrigação a realizar nada que não se origine de suas próprias decisões em Comunais.
Pindorama tem um número definido de Comuns. Elxs alcançam o máximo de 500, jamais ultrapassam esse limite porque acreditam na força das Relações Diretas, e que não podem manter o laço de contínuo contato com xs demais se a comunidade crescer. Sua composição obedece a uma justa e permanente distribuição: 50% tem a capacidade de dar à luz um filho, 50% não. As diversas etnias que comporão Pindorama terão exatamente a mesma proporção de Comuns. Se forem dez etnias, a proporção será 10% de Comuns para cada uma. Dessa forma, a Organização do Nascimento será uma preocupação central em Pindorama para que não se criem minorias. Pindorama não pretende substituir a sociedade ocidental que habita atualmente quase a totalidade do planeta. Objetiva apenas servir de modelo para uma sociedade autossuficiente em todos os sentidos de modo a inspirar iniciativas que rompam com a economia fundada no lucro, e que imponham como limite às nossas ações o exigido equilíbrio com o ambiente.
Xs possíveis primeirxs Construtorxs de Pindorama serão cuidadosamente estudadxs pelxs iniciadorxs do projeto e escolhidxs para que seu início não seja desvirtuado e se perca por falta de cuidados com as ousadas primeiras mudanças radicais.  A primeira geração de Nativxs receberá a Comunificação – formação integral de quantos potenciais, e no máximo grau possível, já fomos capazes de indicar na história –, que permitirá uma virada na consciência de espécie para xs Comuns, já que viverão apenas as experiências comunais, sem qualquer contato, até idade adequada, com o mundo externo. Após a escolha dxs 500 Construtorxs iniciais ninguém mais poderá adentrar em Pindorama, sxxs Construtorxs se renovarão transformando-se em Nativxs através da reprodução organizada mantendo ao máximo possível o limite, e nunca o ultrapassando. 
Pindorama será independente do mundo externo. Ela confeccionará o próprio alimento, roupa, lar, e objetos necessários. Mas, necessidade será um meio para o benefício do Todo. A individualidade não existe à parte da Comunidade. Assim, quase a totalidade dos bens que o mundo externo conhece será descartada por não responderem a este princípio fundamental de Pindorama. Lá se confeccionará a energia necessária para todas as atividades. Nenhum bem externo entrará em Pindorama após a Declaração de Emancipação, momento em que todo o necessário será confeccionado dentro da Comunidade.  
Todxs Comuns participarão da Confecção dos Objetos. Haverá uma parcela de tempo a ser dedicada na confecção por cada Comum. Após executado o tempo de Atividade Geral, restará o período de Atividade Específica, em que x Comum fará o que desejar. O entendimento aqui é o de que em todo momento se está vivendo pelo Todo, e não há dedicação exclusivamente a si mesmx, porque o objetivo é alcançar o aperfeiçoamento de todxs. Então, quando umx Comum dorme ou permanece inerte a olhar o horizonte, elx precisa conceber este momento também como compartilhado, pois seu prazer fortifica a si e ao Todo.
Não existirá ciência em Pindorama, porque esta é dominação desde sua origem com a civilização branca. Mas, Teorética, que será a atividade de penetração do tecido do real para a descoberta de nosso lugar nele e do que podemos dele retirar sem prejuízo de seu funcionamento, semelhante ao que praticaram sociedades antigas e indígenas atuais. Construtorxs e Nativxs se entenderão como parcela indissociável do planeta, que será concebido como umx organismo, portanto, dependente de cada parte para manutenção do movimento contínuo. 
Não haverá líderes em Pindorama. Nem tampouco, representatividade. Lá se entenderá que o poder é intransferível, e a tentativa de adquiri-lo de outrem passará por usurpação inaceitável. Todxs terão acesso às discussões sobre todos os assuntos que exigirem decisões que atinjam o Todo. A discussão, portanto, será uma atividade muito presente e contínua em Pindorama. Para uma decisão ser efetivada serão necessários no mínimo 70% de votos a favor, e todxs xs 500 Comuns terão o mesmo tempo de fala para externar sua posição. Assim, será comum e contínua a realização de Comunais que duram dias, pois se a cada umx se der 3 min de fala se teria 25h de reunião. Como o cansaço impede isso, três ou quatro dias seriam suficientes para as questões menos relevantes. Esta maneira de realizar a Atividade Comum não poderia ser chamada de democracia porque não há distinções entre povo e governante, representante e representado, presentes e essenciais ao governo democrático. A melhor forma de nomear a Atividade Comum em Pindorama será Polinomia, ou o governo de todos para todos e por todos.  
A Comunificação será uma atividade da qual todxs serão responsáveis. Umx Nativx terá como comunificadorxs todxs xs Construtorxs, e em gerações futuras todxs xs Nativxs. Assim, muitos Círculos de Comunicação serão realizados diariamente, nos quais haverá sempre umx Iniciadorx que promoverá em conjunto com xs Nativxs as conversas, debates e diálogos necessários à Comunificação. X Nativx escolherá, a partir dos 9 anos, dentre todos os Círculos diários aquele de que deseja participar sendo reservado o limite máximo de 8 horas e mínimo de 5 horas para estas atividades e Teoréticas que abrangerão: música, teatro, dança, filosofia, matemática, ginástica, física, biologia, química, sociologia, psicologia, direito, economia, política, história, medicina, geografia, engenharias, computação, arquitetura e outras, todas estas adaptadas para que x Nativx não conheça muito cedo o que há de deturpado nas relações do mundo externo. Antes dessa idade, x Nativx será levadx pelxs Genitorxs para as Casas de Instrução onde serão iniciados na Língua Ubuntu, na matemática, na música, ginástica, história, geografia, biologia.
A Língua Ubuntu não terá gênero em seus substantivos. As palavras não representarão um preconceito de categorização do humano, que não cabe em dois supostos gêneros contrastantes. Seus verbos serão todos regulares. Se prezará em sua construção pela riqueza de vocabulário, de expressões e de estilo, de forma que ela possa traduzir sem perdas as melhores obras de quaisquer línguas externas. Haverá várias bibliotecas, uma das quais cada Nativx só poderá acessar após a idade de aptidão para o conhecimento do estado degenerado de nossa espécie, a saber, 17 anos, quando todos os valores comunais já estiverem suficientemente incorporados por elxs.
Após os 17 anos, xs Nativxs acrescentarão à seu cotidiano de Atividade Formativa um período de 3 horas de Atividade Geral, no qual escolherá uma área relacionada aos estudos em que participava nos Círculos de Comunicação para seguir seu trabalho pela Comunidade. Não será obrigadx a seguir por toda vida uma única Atividade Geral. Terá liberdade de migrar para outras áreas, mas sempre respeitando o tempo mínimo de um ano em cada atividade.













Referências



ANDRADE, José Oswald de Souza. A Utopia Antropofágica: Obras Completas. 4ª Edição. São Paulo: Editora Globo, 2011.

_____________________Do Pau-Brasil à Antropofagia e às Utopias: Obras Completas, Vol 6. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.

_____________________. Pau Brasil: Obras Completas. 2ª Edição. São Paulo: Editora Globo, 2003.

_____________________. Fazedores da América. Conferência realizada em 30 de outubro de 1944. Originais do Centro de Documentação Alexandre Eulálio, Instituto de Estudos da Linguagem da UNICAMP.

BERRIEL, Carlos Eduardo Ornelas. Revolução Caraíba: A Utopia Oswaldiana. Itinerários – Revista de Literatura da Unesp, nº 03: Campinas, 1992.

CHAMIE, Mário. Freud, Oswald de Andrade e Antropofagia. Revista de Cultura, nº 43. Fortaleza-São Paulo: janeiro de 2005.

FONSECA, Maria Augusta. Por Que Ler Oswald de Andrade. São Paulo: Editora Globo, 2008.

NUNES, Benedito. Oswald Canibal. São Paulo: Editora Perspectiva, 1979.





[1]     Nunes (1979, p. 37).
[2]     Cf. o artigo Modernismo e Filosofia: o Caso Oswald  de Silvio Gallo em “Impulso  - Revista de Ciências Sociais e Humanas”, nº 24 de Abril de 1999, p. 89-108; e o debate entre Eduardo Sterzi e João César de Castro na mesa “Pensamento Canibal” na Flip em 2011, resumo disponível em: http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2011 /07/10/oswald-filosofo-radical-por-sterzi-castro-rocha-391406.asp
[3]     Cf. Documentário Racism: a History (parte 1:  a cor do dinheiro) da BBC de Londres disponível em:
[4]     Os termos escritos com “x” respondem à preocupação de não reproduzir no texto o machismo presente em nossa linguagem. Assim, quando aparece elxs, o leitor pode escolher entre ler a palavra como “elas” ou “eles”. Da mesma forma “construtorxs”, “nativxs”, etc. Este cuidado é central para o projeto.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

O Curso e o Discurso em Andriêi Tarkóvski

Solaris (1972) - 00.04.33h   

As algas ondulam com o vívido fluído da imberbe água, acompanhando a refração da luz e o discurso da corrente, que serpeia nu pelos verdes cabelos do rio. Acima, no leito, o meio circundante seduz o habitante do mundo - é a mãe primordial encarnada e enterrada em nós. Visto a omniabrangência da fluidez que nos perpassa, a sensualidade inescapável é a própria deixa do eterno-retorno. Dentre os humanos, o artista é aquele capaz de produzir e reproduzir os conteúdos da percepção em formas ou os conteúdos do mundo em formas da percepção, manipulando o mosto informe como demiurgo a sonhar com o sublime. Os mínimos componentes da natureza são importáveis, entrementes a memória na e da experiência não é quantificável, mas emoção, e o microcosmos está tão presente para o artista quanto o que se pode ver nesse planeta orgânico, ao qual nos intraconectamos. Esse perceber é também perspectiva e esse captar é também invectiva. Os silvos gramíneos, o sibilar das ondas nos seixos, a respiração do vento que inspira o poeta a arejar os pulmões dispõem uma sinfonia cósmica, sonante dissonante, pela qual se navega um caminho, uma normatividade compartilhada – a linguagem que pode ser acessada. Entretanto, essa mesma linguagem flutua, assim como o ordenamento, nesse caos que é jóia[1] e é terror, é deslumbre e assombro, onde o entendimento pode ser somente acordo temporário – é o defeito na tentativa de capturar a coisa no dito, de aprisionar com o conceito a multiplicidade, com a fotografia o movimento[2]
A Infância de Ivan (1962) – 00.04.17 h 
A incompreensão emerge no momento em que se é tragado pela torrente impetuosa da visada artística, daquela que pôde ir ao ínfero gélido da morte, bebendo oxigênio líquido, congelando os lábios, a boca, a garganta, os órgãos, a face inteira e revolver-se espasmódica num novo vir-a-ser; daquele que pôde atravessar um deserto esbranquiçado de neve, remoendo o próprio talento, vendo a barbárie quase a devorar os limites da unidade subjetiva;
Andrei Rubliov (1966) – 00.56.35 h 
daquele que deseja com o mais íntimo de si dar o gozo supremo, quando só apresenta o desespero da escolha no continuar a existir;
Stalker (1979) – 00.19.18 h 
daquele que foi lenha, brasas, cinzas e fogo,
O Espelho (1974) - 00.18.10 h  
foi lago, rio, mar e oceano,
Nostalgia (1983) – 01.18.05 h 
foi floresta e incêndio e consumiu a si mesmo.
O Sacrifício (1986) - 00.22.03 h 
  A obra resultante é morte e é parto, é um rebrotar de ser em plurisentidos.  Se há alguém que se pode dizer artista é aquele que com a vida pairando no abismo da dissolução, já teve, para manter sua arte, a temeridade do insistir[3].

[1] Ou κόσμος.
[2] Como na estranheza gerada em demonstrar com palavras aquilo que na imagem do cinema, por exemplo a de Solaris acima, é puro movimento (κίνησις ou κίνημα).
[3] Inspirado pela foto tirada de Solaris (1972), 00.04.33h, relacionada com as outras, que aparecem em outros filmes de Tarkóvski. Além dos sete filmes de Tarkóvski, tomou-se como base o documentário Directed by Andrei Tarkovsky (1988) de Michal Leszczylowski e as entrevistas, que aparecem como extras, da atriz Natalya Bondarchuk (Hari) e de alguns componentes da equipe técnica de Solaris.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Raízes do Brasil (parte II)

Documentário de Nelson Pereira dos Santos, de 2004, dividido em duas partes sobre vida e obra de Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982).



A parte I mostra seu ambiente e convívio familiar, a segunda dá um panorama mais focado em sua obra (obviamente indissociado de sua vida pessoal).

terça-feira, 26 de março de 2013

A aldeia Maracanã


“Não há propriamente uma questão indígena. Há uma questão não-indígena. Quer dizer, nós, não índios, é que somos o problema.” (Darcy Ribeiro, em discurso que aparece no vídeo abaixo, em 1978)



Como os brasileiros muito bem sabem, Maracanã, ave da família dos psitacídeos – ou seja, do grego ψιττακός, ou papagaio -, se refere a vários pássaros típicos das florestas tropicais, semelhantes na etimologia e em formas às Araras. 

Periquitão-Maracanã (Aratinga leucophthalmus)[1]

O próprio sítio do Estádio de Futebol Maracanã, assim se refere ao nome como uma de suas curiosidades:
“Por que o nome Maracanã? A palavra ‘maracanã’, em tupi, significa ‘maracá’ (chocalho) e ‘nã’ (semelhante).  O termo designa um som emitido por um pássaro da família Psittacidae, conhecido como ‘maracanã’, presente em várias regiões do Brasil. À família pertencem espécies como o papagaio, a jandaia e a arara. Antes da construção do estádio, havia no local uma grande quantidade das aves.” [2]
A ave maracanã, assim como a multiplicidade da fauna brasileira, é citada dentre as exaustivas enumerações poéticas de Mário de Andrade no seu Macunaíma – O heroi sem nenhum caráter. Por outra parte, Hans Staden, aventureiro alemão que depõe os considerados primeiros relatos sobre o Brasil na década de 1550, em Duas Viagens ao Brasil, diz acerca dos maracás[3] – as entidades ou deuses, dos tupinambás, antropófagos dos quais ficou cativo –, que eram chocalhos ornamentados, observados também em muitas outras etnias. Não se pode aqui negligenciar o nome daquele registro cultural afro-brasileiro, o maracatu.
“O significado etimológico do termo maracatu enseja algumas explicações. Aplicado a um tipo de ‘dança dramática’ de origem africana, é Mário de Andrade quem confessa não haver encontrado a palavra em qualquer documento anterior ao século XX. Trata-se possivelmente de vocábulo formado por aculturação, o que se infere, dessa forma, de interpretá-lo — o maracatu — ‘como voz africana, porque ele se assimila facilmente a fonemas guaranis’. E explica ainda: ‘Maracá é um instrumento ameríndio de percussão conhecidíssimo. Catu, em tupi, quer dizer bom, bonito, aglutinando, em seguida, lembrando a formação maracá — catu, do que resulta maracatu fundidas as duas sílabas cá’.” [4]
A aldeia Maracanã não tem mais seu território original há décadas, assim como várias etnias BRASILEIRAS cristianizadas, marginalizadas e assassinadas. Não é que esses fatos sejam únicos na história humana, nem que guerra ou outras catástrofes possam deixar de acontecer. Não se pode chegar a uma ingenuidade desse nível! Mas, o que se deve reconhecer, é que o discurso largamente defendido pelo neoliberalismo econômico – modelo que agora vige nas práticas sócio-políticas do Brasil e largamente no mundo -, de que se deve defender a “liberdade” dos indivíduos, noção primordialmente econômica (como se cada ser humano fosse uma formiga operária), é diretamente contrário ao que se faz para mantê-lo: ou seja, exclui-se aqueles que estão marginais a esse modelo, marginaliza-se, quando não, autoriza-se tanto judicial como politicamente o extermínio, como aconteceu a vários outros povos (ex. os Kaiowás). É propriamente a contradição, no sentido marxiano, a ser evidenciada.
De outro lado, está aí o resultado da modernidade, do período industrial, etc., etc.: seres extremamente individualistas - com, claro, computadores em frente ao rosto e redes sociais, a glória do “progresso” e tal -, dispersos e incapazes de inter-relação pessoal sem auxílio de um pedaço de papel - o dinheiro capitalizado.

Sítio da Aldeia Maracanã: http://aldeiamaracanarj.wix.com




[3] “Neste entretempo, os homens se juntaram numa outra cabana. Lá beberam caium e cantaram em honra aos seus ídolos, chamados maracás, que são matracas de cabaça e que tão corretamente lhes anunciaram a minha captura.” (Staden, H. Duas Viagens ao Brasil: Primeiros registros sobre o Brasil. Porto Alegre, RS: L&PM, 2011.


Na conferência Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo dialético, de Slavoj Žižek, o qual veio à Universidade de Brasília, no dia 12 de março de 2013, o índio Ash Ashaninka (que aparece aos 14:54 min do vídeo acima) pede o apoio e já prenuncia a retirada – desmedida e estúpida como foi – dos indígenas da Aldeia.


Foto por Alan Tórma

domingo, 24 de março de 2013

A Coca-cola por eles mesmos: Documentário da História da Coca-cola.


OBID - Observatório Brasileiro de Informações Sobre Drogas:

"Era conhecida como a 'planta divina dos Incas', as mais antigas folhas de coca foram descobertas na região do Peru em 2500 – 1800 a.C. Ao chegar a esta região, no século XVI, os espanhóis entraram em contato com os índios, que costumavam mascar folhas de coca no dia a dia.  


A partir do século XIX, na Europa, a droga teve seu uso difundido como um energético indicado para o tratamento de depressão, fadiga, neurastenia e dependência de derivados do ópio. A cocaína passou a ser vendida sob várias formas, nas farmácias, como medicação, além de ser encontrada em bares, na forma de vinho e refrigerante.

Até 1903, a Coca-Cola era um xarope de coca. Nessa época, os fabricantes, preocupados com o risco de dependência, retiraram a cocaína da fórmula, substituindo-a por cafeína. Em 1914, a venda e o uso de cocaína foram proibidos. O consumo quase desapareceu, retornando a partir da década de 60." 


segunda-feira, 18 de março de 2013

Coca-cola e cerveja – bebidas sagradas do período industrial




A Coca-cola é mais uma das aberrações do período industrial. Enquanto que a cerveja, ou as bebidas alcoólicas em geral, pode estragar famílias – desde o início de seu uso -, a Coca-cola, ou os estimulantes afins deste período, não só destrói famílias, como está acabando com o próprio habitat humano – sim, e dos outros animais, o planeta inteiro está nessa trama.
            A cerveja foi uma das primeiras bebidas alcoólicas, nascida na Mesopotâmia, Suméria como se sabe, e tinha uma função ritualística – consagrada à deusa Ninkasi – dentro do ciclo anual de festas sagradas. O descontrole era caso isolado, pois, em primeiro lugar, havia outro tipo de relação que não a obrigatoriedade do consumo.
            Ao contrário, a Coca-cola, um dos frutos amargos do período industrial, foi assimilada pelo sistema capitalista como a sua “bebida sagrada”. Quando se bebe e se consome esse produto, se é induzido ao estímulo e à sobriedade – ótimo refresco para que se volte ao trabalho e se produza mais e mais com vigor... O conhecido Tempos Modernos (1936) de Chaplin retrata bem o que tenho em mente. A cena em que Chaplin se entope de cocaína é essencial – aliás outra droga do período industrial, que de início era consumida juntamente com a Coca-cola pelos burgueses.


            Por outro lado, a cerveja – como qualquer outra coisa – foi dessacralizada e assimilada pelo sistema produtivo. Amiga da recreação e da embriaguez, seria a inimiga número um da lista do sistema produtivo, onde e no qual se exige o trabalho em excesso. Mas, como o cinema e o parque de diversões – ou os shopping centers (centros de comprar) – do domingo, que Adorno caracteriza como continuação do trabalho, a cerveja foi apropriada como um “refresco” ou “dormitivo” legalizado para que o trabalhador se entorpeça à noite e volte ao trabalho no dia seguinte.
            Aqui no “país do futebol” – aliás, outra coisa apropriada – o trabalhador, que às vezes domingo de manhã joga bola com os amigos, chega em casa ou sai do trabalho, assiste a um jogo tomando uma latinha de cerveja, sonhando com os jogadores que se divertem com uma bola de borracha – ou o que for – e ganham milhões por ano. O sonho, a ilusão do(a) trabalhador(a) de “ficar rico”, é alimentada na embriaguez do álcool, mulheres rebolantes e esportistas milionários. Estes, a versão contemporânea e neoliberalista dos gladiadores escravos, até inauguram ONG’s para “ajudar” meninos carentes a chutar bola e para fazer referência a seu passado de pobreza. Agora, patrocinam o ciclo de miséria e mais perversões (no sentido clínico mesmo, como Zizek nos apresenta. Ex.: café descafeinado, cerveja sem álcool, etc.) que o sistema produtivo induz e produz para que se continue a “ter prazer”, e que de qualquer modo se consuma. Há obrigação até mesmo, ou principalmente, de se ter prazer...


domingo, 17 de março de 2013


Acerca da Existência

Para aclarar o sentido do termo “existência” como termo técnico, assim como trabalhado pela Filosofia da Existência, lançarei mão de minha obra Metamorfoses na Jugular Petrificada em sua Parte I do Capítulo IV, o qual tem por título “O perigeu de vermes à morte”. Nessa parte, Hermes, personagem que narra suas introspecções na obra, faz suas reflexões sobre o fim, o fim próximo – esse é o capítulo final da obra.

“Em um cemitério qualquer da cidade - não que esteja ocultando ou receoso de nomear, apenas não o desejo fazer – venho sozinho no dia de hoje, que é talvez o dia mais estático da semana, infelizmente pela Era Vulgaris em que ainda vivemos, a qual determina que seja um dia de descanso por um tal pensamento desprezível.
Deixo claro neste instante a característica iracunda e estúpida que estou vivendo, pois, como me parece, não estou suportando nem mais a mim mesmo. Por ora, não estou suportando mais ser isto, neste corpo, neste impreciso lugar. Uma turba de setas atravessa minha mente com voracidade e me faz odiar. Esse turbilhão de sensações e pensamentos me inclina a não aceitar mais, a não ser mais paciente com o mundo.
O jazigo que faço de assento – com Thánatos ao lado - está úmido como o ar, o solo, as plantas e eu. Chove uma garoa leve e incessante. Não sei se chove de fora para dentro ou de dentro para fora de mim, sinto-me, apesar da aversão, em uníssono com a reflexão que me proporciona o lugar e a ocasião. E é por isso mesmo este o local mais apropriado, o único que me traria tal apaziguamento e que geralmente me trouxe.
Desde os modos púberes obtenho descanso provisório - o que é propício – aqui, acompanhado ou sozinho, me foi o bosque de inspirações por onde passava a linfa do meu Parnaso e do meu Febo, por onde passeavam minhas ninfas corrompidas, prostitutas inspiradoras. Muitas memórias me lembram agora nesta introspecção: de poesias que escrevi sentado talvez até neste mesmo túmulo, debaixo desta mesma árvore; de muitos vinhos que bebi, do bafo de Shiva que traguei e de muitos outros artifícios que utilizei para fugir e ir de encontro com a realidade que parece me cercar e com a gravidade que parece me sugar para o chão obstando minha essência expansiva e volátil, respectivamente; de muitas conversas e ideias que realizei; de interpretações da Natureza e do que é humano que inferi e tantas coisas. Por vezes, tal qual esta, quis que tivesse aqui também um Letes para que eu pudesse me esquecer e ao resto.
A realidade se resume ao acerbo, ao vazio, ao triste: não parece comportar o fantástico e o belo. Se porventura buscas na realidade algo mágico, irás encontrar um grande muro para chocar-se. É o que procuro evitar, ver algo de dócil nisso, e mesmo sendo tão cauto me deparo com ele: pronto para me partir ao meio. A parte que me aflige é justamente a humana... E quais outras não o são? Talvez as construções: são produtos humanos, mas não têm característica humana, são desenhos, músicas, livros, esculturas – não-tocáveis diretamente pela realidade, apesar de o rastro de sua nequícia conseguir, por vezes, deixá-los obsoletos. Porém, também são produtos da realidade - sou um filtro que a sorve e a interpreta - são, portanto, visões, imagens, pensamentos conjecturados consequentes disso. A questão é: depois de definidos não podem ser alterados senão pelo ser humano, a realidade não pode mais incidir, suas essências já foram determinadas, diferente da do ser humano que é mutável de acordo com suas escolhas e com o Caos que as dirigem?
Das muitas vezes que por aqui estive ainda não havia estado em tamanha misantropia e entropia intrínsecas... Desgoverno... Este meu singrar às cegas já me causa hemorragia grave... Não consigo ouvir senão gritos ecoando em meio às negras árvores retorcidas do cerrado, olhar para o céu e ver plúmbeas nuvens carregadas de pesar e lágrimas, a estepe gélida e umedecida donde sou lobo solitário a bramir em agonia... Ferido... Desgarrado da matilha e do ambiente natural. Nem mesmo o carmesim ocaso me é possível agora, vejo o escurecer noctívago em tons preto, branco e cinza...
Neste momento já se torna quase impossível escrever sem uma vela a me guiar rutilante na escuridão – peço ajuda a Ártemis para que me guie com seus cabelos cerúleos e argênteos intermitentes ante o céu nebuloso. Eu, como os que jazem abaixo de mim, sou mais um, não é necessário viver, urge construir! Já dizia o luso poeta. Construir para que não sejamos como os demais animais, para que não sejamos mais um no rebanho, iguais em cinzas esparzidas e debaixo da terra - la grand danse macabre. O que distingue nossa existência são nossas construções, mas o veio da imortalidade só é dado a alguns, tais que não desfrutam por não poderem saber já que isso apenas é calcado post mortem e com o valor dado gradativamente pelos vindouros – o complexo da imortalidade. O que pensaram estes sob minha pena antes de morrer sobre a morte? Um além-vida, se crédulos; ou um fim, por assim dizer, se descrentes? Meu pensamento mira para a incerteza e a imparcialidade, a não tomar partido: vejo como uma bela dama desnuda com um fino véu translúcido a cobrir-se, a morte; não a quero em pesados trajes, a quero crua e fresca. Ao que me consta, somos animais como os outros e portanto, analisando fatos extrínsecos à essência humana, reflito o fenecer do meu Lobo Guará hipotético: é terminado, por um motivo qualquer, mais um ciclo da natureza; ele existiu e deu existência a outros seres na realidade, findou a de alguns, transformou; agora observo-o apodrecer longamente dando início a novos ciclos da natura. Vermes e insetos se alimentam de suas reminiscências, a terra ao redor é fertilizada, plantas irão se alimentar dos minerais e nutrientes ali coletados, outros animais utilizarão de tais plantas e daí o Caos segue. É o que acontecerá com meu corpo se porventura morrer numa floresta. E o que acontecerá com minha consciência? Definhará com os neurônios pútridos de meu cérebro. Como também é possível de diversas maneiras perdê-la em vida: em estado vegetativo, em coma, desmaiado et coetera; nesses casos somos não mais que animais como os outros, sem o pensar atuante,  o que, claro, apesar disso não o deixamos de ser. E então, apesar da psique, qual o grande mistério dessa plutônica dama – a lúrida imago mortis? Quando se reflete acerca da morte humana é feito um grande alarde e quando da morte de outros seres nada de enigmático é erigido. Uma reflexão um tanto esparsa, uma omissão um tanto desejada por parte de alguns, a qual desejo destruir ou completar mais que a mim mesmo. Pergunto-me: é necessário tal lacuna, tal mistério? É necessário o existir ser condicionado a algo inexistente? A mim não. E pelo que vejo aos outros animais também não. Tal necessidade nem é possível também, já que somos objetos integrantes de realidades e não de sobre-realidades e afins, por fim essa interação seria contraditória. Na verdade, são realidades imaginárias essas denominadas sobrenaturais. E o além-vida, não mais do que suposições do que seria se houvesse a possibilidade da dualidade alma-corpo, imagina-se vários tipos de fins e recomeços como: o Hades, o reino de Hell e o Asgard, a reencarnação, a eternidade da alma ou não. O interessante também é não se perguntar como surgiu a crença em que se acredita: apenas se obedece à tradição. O início da disseminação é dado pelos rapsodos, pajés, mártires e vários outros que através de alguma alucinação começam a produzir os óculos e outros utensílios com os quais a grande massa irá perceber o mundo ao seu redor. Não obstante, as sociedades ágrafas, tribais, pagãs - como as civilizações mesopotâmicas, meso e sul-americanas, egípcia, grega – formulavam, também, seus mitos a partir dos astros, orbes e estrelas; povos vizinhos praticaram o intercâmbio cultural - ai o porquê de muitas crenças serem parecidas, com números simbólicos, datas, histórias, gêneses idênticas, que não mais são do que os ciclos celestes. Sim, se há o princípio da formulação há também um fim em várias delas: o Ragnarok, as profecias maias (apesar de em certos aspectos terem respaldo nas observações astronômicas e científicas, como a medição do movimento de precessão da Terra, o que é digno de admiração) e tantos outros que dão um limiar e o fim de uma sentença lógica para que o raciocínio esteja completo e seja facilmente aceitável. Essas proposições dão uma sensação de segurança indizível como explicações imediatas do Universo e dos fenômenos. Tal fortaleza também sentia Actéon ao ocultar-se na relva pensando lograr êxito em ver a pia filha de Leto em seus mais belos encantos, suas intocadas curvas, pudica e indomada... Ó! Ter a imagem virginal não tida por outrem... Qual observar o ninho de uma águia ou uma onça a poucos metros, qual imergir ferido num rio infestado de piranhas, qual invadir um território Tupinambá em pleno festim antropofágico - terminando fatidicamente como banquete... [...]”

            O que impele a Filosofia da Existência, e a Filosofia desde seus primórdios, é a pergunta pelo sentido de “ser”. A própria inquirição de Parmênides, o eleata, resultou em uma doutrina do ser, o seu assombro diante desse “rígido e mortal silêncio do mais frio e vazio de todos os conceitos” [1]. A filosofia eleata firmou base para toda a ontologia posterior, e uma de suas preocupações principais foi a de destacar o ser como conceito, erigindo para si um método que considerava a sensibilidade como enganadora, os próprios sentidos como uma ilusão; a partir de então a metafísica, ou o “campo do supra-sensível” como chamou Kant[2], o modo de especular sobre o mundo dos conceitos impulsionado por esse conceito angular que é o conceito de ser; na distinção entre essência e aparência foram colocados como ilusórios também o tempo e o movimento.
            No trecho destacado da obra supracitada, Hermes suscita questões caras ao tema. Todavia, seus questionamentos não têm um trato de via fenomenológica, ou seja, não partem do ponto do método fenomenológico, o que se põe como crucial para a Filosofia da Existência tal como Heidegger o propôs em sua obra Ser e Tempo de 1927. Heidegger, filho dos desdobramentos da filosofia moderna, como o cogito ergo sum de Descartes, se impõe a tarefa da destruição da história da ontologia. Ontologia é o estudo das coisas que são, dos entes, está na constituição da palavra o particípio presente do verbo grego ser (εἰμί) - ὄντος, aquilo que é, sendo. Por outro lado, nossa palavra portuguesa ente deriva do também particípio presente latino ens, entis do verbo ser (sum). A característica do tempo presente está atrelada à coisa, cada vez que falamos sobre ela ou nos referimos a ela em nossa língua ocidental. Ser, como distingue Heidegger, é cada vez ser de ente. No entanto, este ser não é ele mesmo um ente, como os filósofos antigos o trataram.
            “Ente é tudo aquilo de que discorremos, que visamos, em relação a que nos comportamos desta ou daquela maneira; ente é também o que somos e como somos nós mesmos. Ser reside no ser-que e no ser-assim, na realidade, na subsistência, no consistente, na validade, no Dasein [...]” (HEIDEGGER, M. Ser e Tempo. Introdução. §2, p. 45)
            A analítica do ente existente – o Dasein -, segundo Heidegger[3], é a primeira exigência da pergunta pelo ser, orientada para a tarefa que conduz à elaboração da questão-do-ser. Essa analítica é o modo que dirige o acesso a esse ente, não se deve aplicar dogmática e construtivamente qualquer ideia de ser e de realidade efetiva. Desse modo, não há uma completa ontologia do ente existente, é provisória, pois, lhe põe à mostra mas não lhe interpreta o sentido – há uma interpretação do tempo, como meta provisória, horizonte possível da compreensão-do-ser em geral; tempo como algo a partir de que o ente existente interpreta e compreende algo como ser, repetidamente é preciso interpretar as estruturas desse ente como modos da temporalidade. O ente propriamente existente é propriamente histórico, dado que Hermes ao longo de suas elucubrações tenta suspender.
            A respeito da pergunta pelo ser, o “perguntar” é um caráter próprio do ser, enquanto comportamento de um ente (o perguntante). Esse perguntante é o ente humano, o Dasein, o propriamente existente. Portanto, existir é possibilidade própria do ser humano, aquele que é capaz de perguntar pelo ser – ou seja, que é capaz de ontologia. O ente existente tem, por isso, precedência multíplice diante de qualquer ente, como Heidegger distingue: precedência ôntica, pois é determinado em seu ser pela existência; ontológica e uma condição ôntico-ontológica, porquanto pertence-lhe um entendimento do ser de qualquer ente não-conforme a ele.[4] A analítica existenciária de Heidegger busca a ontologia-fundamental, base e princípio de qualquer outra que vier a surgir.
            Assim, a palavra portuguesa existir tem sua origem no verbo latino exsisto,-is,-ere: sair de, elevar-se acima de, surgir, aparecer, apresentar-se, mostrar-se. Donde, a noção do modo do ser desse ente existente, de algo que se expulsa, que fica de pé e respira (como na metáfora dos antigos e na noção homérica de ψυχή, como um hálito, um sopro de vida que se esvai do corpo ao morrer[5]), mas que se mostra e se exibe, se constrói e se mantém construindo, subsistindo (sisto,-is,-ere). Assim como contesta Nietzsche[6] e como Abbagnano explicita, de acordo com a analítica da Filosofia da Existência:
            “O homem só se constitui na indeterminação enquanto a indeterminação já foi, só enquanto ela está no passado, já ultra-passada e transcendida. O estado de indeterminação supõe um movimento que vai além da indeterminação. A ultrapassagem da indeterminação, o sair dela é o existir (exsistere).” (ABBAGNANO, N. Introdução ao existencialismo, p. 50)
            A existência, portanto, é o ser em relação ao qual o ente existente pode comportar-se e persistentemente se comporta desta ou daquela maneira, está em jogo em seu ser esse ser ele mesmo, em uma compreensão mediana e vaga se compreende – é próprio dele que esteja aberto para si mesmo[7]. Sua “determinação-de-essência”, como chama Heidegger, não se efetua por um quê de conteúdo-de-coisa, a sua essência está em esse ente ser cada vez seu ser como seu. Compreende-se o ente existente a partir de sua existência – a partir da possibilidade de ser si mesmo ou não, ou escolheu essas possibilidades ou chegou a elas ou se construiu cada vez nelas.
            Nossa palavra essência (essentia) procede do verbo ser latino no infinitivo (esse), é simplesmente a natureza duma coisa, o ser de um ente. O que se pode notar, então, desse ente existente é que não tem uma essência acabada, ela está, por assim dizer, “por se fazer” – a cada momento por se “acabar” na existência.  
            O método descritivista do aparecer, tomado da fenomenologia de Husserl por Heidegger, quer romper com as dicotomias metafísicas fenômeno/coisa-em-si, sujeito/objeto acalentadas longamente ao decorrer da filosofia moderna. A fenomenologia exprime a máxima: “às coisas elas mesmas!”. Esse conceito-de-método não caracteriza o quê de conteúdo-de-coisa, mas seu como[8].
            “Nessa apreensão do conceito de fenômeno, permanece porém indeterminado o ente de que se trata como fenômeno e permanece em geral em aberto se o que cada vez se mostra é um ente ou um caráter-de-ser do ente; assim, o que se alcançou até agora foi unicamente o conceito formal de fenômeno.” (HEIDEGGER, M. Ser e Tempo. Introdução. §7, p. 111)
            Em contraposição a qualquer filosofia da interioridade, de que podem ser chamados os precursores (costuma-se citar Pascal, Nietzsche ou Kierkegaard, etc.) do existencialismo ou Filosofia da Existência – não se faz aqui distinção entre esses dois termos -, há, pois, a crítica dirigida àquilo que se poderia chamar “filosofia alimentar” – em outras palavras, correntes de pensamento onde se usa da noção de que conhecer é comer, digerir. A consciência, por assim dizer, não tem “interior”, aquilo que pode ser expresso pela frase de Hermes: “Não sei se chove de fora para dentro ou de dentro para fora de mim [...]”. Todavia, ao contrário, não há dentro, até nós mesmos estamos fora, no mundo, entre os outros – como diz Sartre no texto “Uma ideia fundamental da fenomenologia de Husserl: a intencionalidade”. Existir nesse sentido é estar jogado, estar sendo expulso. Como para Heidegger, ser é estar-no-mundo em movimento.
O caráter abrupto desse “estar jogado”, ser-aí, é bem expresso pelo personagem de Albert Camus, em sua obra O estrangeiro, Meursault. Onde o absurdo da existência - na qual estamos jogados gratuitamente, sem fim a preencher – é destrinchado. Meursault: o personagem que mata um homem desconhecido “por causa do sol” [9].
“Um mundo que se pode explicar, mesmo com raciocínios errôneos, é um mundo familiar. Mas num universo repentinamente privado de ilusões e de luzes, pelo contrário, o homem se sente um estrangeiro. [...] Esse divórcio entre o homem e sua vida, o ator e seu cenário é propriamente o sentimento do absurdo.” (CAMUS, A. Mito de Sísifo, p. 20).
Algumas considerações feitas ao existencialismo de antemão trataram-no por puro irracionalismo, ao se depararem com asserções como a feita acima. Lembrando a resposta de Abbagnano[10], também se pode visualizar o caso de Isak Borg, personagem principal do filme Morangos Silvestres de Ingmar Bergman, o qual se dirige para receber o grau honorário da Universidade de Lund por seus 50 anos de carreira, trajetória na qual percebe, apesar de sua carreira de sucesso, seu completo fracasso existencial. O racional não está excluído, por vezes a atitude concreta de uma personalidade passa por um processo profundamente pré-reflexivo, ainda assim a atitude existencial, do constante escolher-se, permanece a cada ente existente independentemente de adesão a este ou aquele pensamento, convicção, narrativa, etc.      
Bibliografia:

ABBAGNANO, N. Introdução ao existencialismo. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
CAMUS, A. O estrangeiro. 2ª Ed. – Rio de Janeiro: BestBolso, 2010.
________. O mito de Sísifo. 3ª Ed. – Rio de Janeiro: Record, 2006.
Dicionário Latim-Português. 2ª edição. Porto: Porto Editora, 2001.
HEIDEGGER, M. Ser e Tempo. Campinas, SP: Editora da Unicamp; Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2012.
HOMERO. Odisseia. São Paulo: Ed. 34, 2011.
KANT, I. Crítica da Razão Pura. In: Pensadores, Editora Nova Cultural, 1999.
NIETZSCHE, F. A Filosofia na Era Trágica dos Gregos. Porto Alegre, RS: L&PM, 2012.
PEREIRA, Isidro. Dicionário Grego – Português/Português – Grego. 8ª Ed. Braga, Portugal: Livraria Apostolado da Imprensa, 1998.
TÓRMA, Alan. Metamorfoses na Jugular Petrificada. São Paulo: Clube de Autores, 2012.



[1] NIETZSCHE, F. A Filosofia na Era Trágica dos Gregos. XI, p. 91.
[2] KANT, I. Crítica da Razão Pura. In: Pensadores, Editora Nova Cultural, 1999. Prefácio à segunda edição, p. 41.
[3] HEIDEGGER, M. Ser e Tempo. Introdução. §5, p. 75.
[4] HEIDEGGER, M. Ser e Tempo. Introdução. §4, p. 63.
[5] Ver o diálogo de Odisseu com sua mãe no Hades: Odisseia, XI, 205-22.
[6] NIETZSCHE, F. A Filosofia na Era Trágica dos Gregos. XI, p. 95.
[7] HEIDEGGER, M. Ser e Tempo. Introdução. §4, p. 59.
[8] Idem. §7, p. 101.
[9] CAMUS, A. O estrangeiro, p. 95.
[10] ABBAGNANO, N. Introdução ao existencialismo, p. 15.